Scribendo disces scribere

Dom Orani

In Igreja Católica, Nacional, Opinião on Sábado, 28.02.2009 at 21:34

bispo

Dom Orani parte de Belém do Pará deixando saudades e um espírito novo na Arquidiocese. Espírito de respeito, abertura e diálogo.

Como paroaras briosos, nos orgulhamos de oferecer à Arquidiocese do Rio de Janeiro um prelado que dignifica o episcopado brasileiro. Belém tem a dita de receber bons bispos e vê-los promovidos a sés com mais prestígio.

As promoções para sólios ilustres começaram  no século XVIII, com Dom Frei Caetano Brandão que foi para a sé primacial de Braga, em Portugal. Este foi tão bom que mereceu monumento no centro da cidade de Belém. No século XIX, Dom Macedo Costa foi nomeado primaz do Brasil, indo para a Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Ainda no século XIX, Dom Jerônimo Tomé da Silva foi transferido para Salvador, onde governou por 31 anos. No século passado foi a vez de Dom Jaime que de Belém saiu Barros Câmara e no Rio virou Cardeal de Barros Câmara. O que é provável que aconteça ao nosso amado Orani João que ficará Cardeal Tempesta.

Dom Orani deixa saudades por onde passa. Em 1997, quando foi nomeado bispo de Rio Preto,  o anúncio tomou forma solene nas palavras de Dom Luigi Rottini: «O vosso e meu bom pai, por vontade de Deus, foi elevado a um ofício superior». São palavras que ecoam nos séculos do monaquismo cisterciense. São Bernardo usou estes termos em situação similar no século XII.

Saudades e alegrias em Rio Pardo, em Rio Preto, em Belém do Pará. O Rio de Janeiro alegre-se porque recebe um homem santo, inteligente e prudente – combinação rara nestes tempos de fast-food.

cordeiro

Sede vacante

In Igreja Católica, Opinião on Domingo, 29.11.2009 at 22:13

A sé arquiepiscopal paraense está vaga desde a nomeação de Dom Orani Tempesta para a Arquidiocese do Rio de Janeiro, em 27 de fevereiro deste ano. Leio no jornal um artigo sobre a demora na sucessão. Um amigo me reclama o silêncio sobre o caso. E eu faço cá minhas elucubrações.

Tenho alguns dados do bispado do Pará, fruto de leituras e alguma pesquisa do tempo em que estive na Biblioteca Pública, minha querida Arthur Vianna. Aliás, é bom que se registre que a Biblioteca Pública foi um dos primeiros locais que Dom Orani visitou quando chegou a Belém.

O Bispado do Pará foi criado em 1719. É uma das sés mais antigas das Américas. Enquanto perdurou o regime monárquico, havia a indicação do rei ou do imperador para a nomeação dos bispos. No Pará, o último que foi apresentado deste modo foi Dom Antônio de Macedo Costa.

Tivemos bispo destituído por ordem régia, o polêmico Dom João de São José de Queirós da Silveira. Este foi cutucar onça com vara curta, acabou exilado em um mosteiro perdido num penhasco em Portugal. A onça, no caso, era o Marquês de Pombal. A vacância causada pela saída de Dom João de São José foi a mais longa do sólio episcopal paraense: nove anos.

Tivemos bispo encarcerado. Esta foi uma dura e sofrida ausência, sem vacância. Durante a chamada “Questão religiosa”, Dom Antônio de Macedo Costa foi preso em abril de 1874. Foram 18 meses de prisão. O Imperador decretou a anistia em setembro de 1875.

A penúltima vez que a sé arquiepiscopal paraense ficou vacante foi na década de 50, na sucessão de Dom Mário de Miranda Vilas-Boas. Foi uma espera que durou seis meses. Dom Vicente sucedeu a Dom Alberto sem interregno, dado que fora nomeado arcebispo coadjutor com direito a sucessão. E Dom Orani foi nomeado na mesma data em que a renúncia de Dom Vicente foi aceita.

Na Wikipédia me dei ao trabalho de fazer a linha do tempo destas sucessões.

A espera faz parte da dinâmica religiosa. Em tempos midiáticos e imediatos, parece bizarria tanta espera. Consultas foram feitas, nomes foram sondados e sugeridos, cartas seguiram e bula se espera. Arrisco dar o meu palpite: É certo que será brasileiro, já é bispo, e a demora se deve a alguma função ou situação que ainda prende o eleito no local em que está.

Em breve teremos um bispo que – ouso parafrasear Camilo Castelo Branco – não maculará a mitra que assentou na fronte Caetano Brandão.

Santidade

In Religião on Domingo, 01.11.2009 at 10:33

bom_samaritanoCelebra-se hoje, em algumas denominações cristãs, a festa de todos os santos.

Ana Diniz, em sua bem humorada novela Santíssima greve, propôs aos anjos um desafio: mediar os anseios humanos. Tarefa até então desempenhada pelos santos, que naquele momento estavam em greve. O desastre da mediação angelical estava no fato destes não terem tido o privilégio da humanidade. A narrativa se desenvolve com episódios inusitados. A encarnação é essencial para a aproximação do humano ao divino. Wim Wenders trouxe este olhar sobre o humano e o angélico em Asas do Desejo (Der Himmel ünder Berlin). O anjo que se apaixona pela trapezista é uma metáfora sempre rica em interpretações e derivações.

A santidade supõe humanidade e divindade. O humano santifica-se em sua relação amorosa com o Único Santo. Para viver a experiência do humano, Cristo se encarna e nos ama; pela encarnação, nos chama à santidade.

Os santos celebrados hoje não ultrapassaram os limites da humanidade; trouxeram a face do Único Santo para a proximidade do humano. Cada um de nós, em seu tempo e em seu espaço, é a possibilidade da manifestação do Amor. Quando o nosso agir é um ato amoroso, testemunhamos a santidade que vem d’Ele. E, neste testemunhar, somos santos. A santidade será a experimentada pelo outro que percebeu em nós um fragmento do Único Santo.

Cada santo, cada um de nós, tem um modo próprio de manifestar uma característica do amor: atenção, zelo, paciência, operosidade, justiça, retidão, alegria, criatividade… Assim como no filme de Wim Wenders percebemos os anjos e não os vemos; vemos os santos e não nos damos conta.

Alguns santos, algumas santas, ainda estão a perambular pelas ruas e pelos nossos corações. Não nos damos conta que aquela nossa cozinheira pode ser uma Santa Zita; que o nosso pai foi um zeloso São José e nossa mãe uma doce Santa Maria. Ao passear com os olhos pelo álbum de família, pode-se surpreender-se com uma inesperada iconóstase das formas e modos de Deus manifestar o seu amor.

Ser santo, afinal, é trazer Deus, não para nós, para nosso deleite; mas para o mundo, para o outro. Ser santo é permitir a experiência de Deus Amor na vida dos outros. Ser santo é perceber que o Deus que há em mim deseja saudar o Deus que há em ti.

Namastê!

GO-092-7