Ao celebrar-se o Dia Internacional da Mulher vejo a tendência de ressaltar-se a cronologia das conquistas femininas. Esta diacronia, quando muito, começa no final do século XIX. Pergunto-me com sincera dúvida: São conquistas? São conquistas femininas ou concessões masculinas? Conquista-se ou resgata-se?
Corro no tempo, tento achar as marcas da pilhagem sofrida pelas mulheres no curso da história. É coisa longa e voraz. Das cavernas aos semáforos, há um longo caminhar.
Apresento meu olhar sobre representações do feminino. Por certo não é texto antropologicamente correto. Apenas um correr d’olhos em algumas páginas do livro místico, de encadernação vistosa:
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
(Caetano Veloso. Elegia)
Mãe que nutre. Vênus provedora. Talvez sejam estas as primeiras representações míticas da mulher. Na Vênus paleolítica contemplamos mais de 40 milênios de representação do feminino. São imagens pequenas, milenares, carregadas de testemunho do pensamento humano. Beldades, matriarcas, guerreiras? Foram eternizadas em argila para nos intrigar e confrontar 40 milênios depois.
Milênios depois, encontramos as mulheres de Creta, bem antes das Mulheres de Atenas. O tempo que nos distancia da civilização minóica perfaz um caminho de cinco milênios. Lá, na Creta do legendário rei Minos, a mulher ainda era protagonista no cenário religioso, econômico e político. Era civilização sem escravidão. A mulher era quase igual ao homem em direitos. Na cena religiosa só havia deusas; os deuses e suas fúrias ainda não haviam despertado.
Os seios desnudos das divindades cretenses ressurgirão milênios depois em imagens de Nossa Senhora da Lactação.
Ao longo da história outras Vênus foram materializadas: no Mar Egeu, no Amazonas, no Hudson ou no Sena.
Vejo, por fim, um amontoado de Vênus, pela lente de Herb Ritts: Stephanie Seymour, Cindy Crawford, Christy Turlington, Tatjana Patitz e Naomi Campbell. Representações do feminino nos anos 80. Desnudas, como convém a Afrodites; mas escondem seus divinos seios.


Muito bacana tio!
E viva nós!!