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Belém-Brasília

In Efemérides, Nacional, Reminiscência on terça-feira, 20.04.2010 at 12:52

Lembro de um jogo de memória que minha irmã ganhara com imagens de uma Brasília recém-inaugurada. Recordo narrativas de uma poeira avermelhada que se fazia onipresente. Falavam de um descampado a conquistar. Contavam de um JK; de um sonho de São João Bosco. Falavam de uma Belém-Brasília que integrava o Norte ao coração do Brasil, ao Planalto Central.

Aquelas imagens do jogo de memória não me saem do pensamento estes dias em que a festa dos 50 anos de Brasília se aproxima. Estou com vontade de sair a fotografar e recompor o jogo e a memória.

Em 2008 tive a alegria de receber a dona daquele jogo de memória e sua família, no aniversário de Brasília. Saímos a passear pelos traços de Lúcio Costa, pelos jardins de Burle Marx, percorrendo com o olhar e com o caminhar as cores de Athos Bulcão, as formas de Alfredo Ceschiatti e as curvas de Oscar Niemeyer. Brasília já se inoculara em nosso imaginário na distante Belém, embelezada por Landi; mas com alguns traços do moderno Porto de Oliveira. Belém-Brasília encurtou-se em nossos corações e em nossas apreciações estéticas e sentimentais.

Minha irmã e eu jogávamos com imagens que hoje posso nomear: “As banhistas”, de Ceschiatti; “Os Candangos”, de Bruno Giorgi; a Catedral, o Congresso e assim vai. Já não sei o que são peças do jogo ou os jogos da memória que se embaralham em recordações e presenças.

Em Belém imaginei o que hoje contemplo.

Feliz aniversário, Brasília!

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Sede vacante

In Igreja Católica, Opinião on domingo, 29.11.2009 at 22:13

A sé arquiepiscopal paraense está vaga desde a nomeação de Dom Orani Tempesta para a Arquidiocese do Rio de Janeiro, em 27 de fevereiro deste ano. Leio no jornal um artigo sobre a demora na sucessão. Um amigo me reclama o silêncio sobre o caso. E eu faço cá minhas elucubrações.

Tenho alguns dados do bispado do Pará, fruto de leituras e alguma pesquisa do tempo em que estive na Biblioteca Pública, minha querida Arthur Vianna. Aliás, é bom que se registre que a Biblioteca Pública foi um dos primeiros locais que Dom Orani visitou quando chegou a Belém.

O Bispado do Pará foi criado em 1719. É uma das sés mais antigas das Américas. Enquanto perdurou o regime monárquico, havia a indicação do rei ou do imperador para a nomeação dos bispos. No Pará, o último que foi apresentado deste modo foi Dom Antônio de Macedo Costa.

Tivemos bispo destituído por ordem régia, o polêmico Dom João de São José de Queirós da Silveira. Este foi cutucar onça com vara curta, acabou exilado em um mosteiro perdido num penhasco em Portugal. A onça, no caso, era o Marquês de Pombal. A vacância causada pela saída de Dom João de São José foi a mais longa do sólio episcopal paraense: nove anos.

Tivemos bispo encarcerado. Esta foi uma dura e sofrida ausência, sem vacância. Durante a chamada “Questão religiosa”, Dom Antônio de Macedo Costa foi preso em abril de 1874. Foram 18 meses de prisão. O Imperador decretou a anistia em setembro de 1875.

A penúltima vez que a sé arquiepiscopal paraense ficou vacante foi na década de 50, na sucessão de Dom Mário de Miranda Vilas-Boas. Foi uma espera que durou seis meses. Dom Vicente sucedeu a Dom Alberto sem interregno, dado que fora nomeado arcebispo coadjutor com direito a sucessão. E Dom Orani foi nomeado na mesma data em que a renúncia de Dom Vicente foi aceita.

Na Wikipédia me dei ao trabalho de fazer a linha do tempo destas sucessões.

A espera faz parte da dinâmica religiosa. Em tempos midiáticos e imediatos, parece bizarria tanta espera. Consultas foram feitas, nomes foram sondados e sugeridos, cartas seguiram e bula se espera. Arrisco dar o meu palpite: É certo que será brasileiro, já é bispo, e a demora se deve a alguma função ou situação que ainda prende o eleito no local em que está.

Em breve teremos um bispo que – ouso parafrasear Camilo Castelo Branco – não maculará a mitra que assentou na fronte Caetano Brandão.

Sete igrejas

In Igreja Católica, Semana Santa on quarta-feira, 08.04.2009 at 01:27

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O Centro Histórico de Belém do Pará conserva, pelas vias estreitas de seu passado, a tradição da vista das sete igrejas na Semana Santa. Percorri muitas vezes estes trajetos encharcados de história. Refaço, aqui no Almanak Arouck, algumas trilhas de uma devoção de muitos séculos. Esta prática devocional consiste na visita a sete diferentes igrejas, capelas ou oratórios na Sexta-feira da Paixão.

A tradição de visitar sete igrejas na Semana Santa tem raízes na peregrinação às sete basílicas em Roma. Esta peregrinação é de registro muito remoto. Em 1552, a peregrinação às sete basílicas romanas foi organizada e incentivada por São Felipe Néri. Esta devoção propagou-se e foi tomando formas adaptadas em diversos locais, além das sete colinas de Roma. Belém herdou esta devoção por vias lusitanas, ainda nos tempos coloniais.

No Centro Histórico de Belém há diversos templos católicos, de diferentes momentos históricos. Isto permite uma boa variedade de combinações de trajetos. Transcrevo abaixo dois de meus roteiros.

 

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I.   Capela do Convento de Santo Antônio
II. Capela da Ordem Terceira de São Francisco
III. Igreja Nossa Senhora das Mercês
IV. Capela dos Pombo
V. Igreja de Nossa Senhora de Sant’Ana
VI. Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos
VII. Igreja da Trindade

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I. Igreja de São João Batista
II. Igreja de Nossa Senhora do Carmo
III. Catedral da Sé
IV. Capela dos Pombo
V. Igreja Nossa Senhora das Mercês
VI. Capela da Ordem Terceira de São Francisco
VII. Capela do Convento de Santo Antônio

 

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Dom Orani

In Igreja Católica, Nacional, Opinião on sábado, 28.02.2009 at 21:34

bispo

Dom Orani parte de Belém do Pará deixando saudades e um espírito novo na Arquidiocese. Espírito de respeito, abertura e diálogo.

Como paroaras briosos, nos orgulhamos de oferecer à Arquidiocese do Rio de Janeiro um prelado que dignifica o episcopado brasileiro. Belém tem a dita de receber bons bispos e vê-los promovidos a sés com mais prestígio.

As promoções para sólios ilustres começaram  no século XVIII, com Dom Frei Caetano Brandão que foi para a sé primacial de Braga, em Portugal. Este foi tão bom que mereceu monumento no centro da cidade de Belém. No século XIX, Dom Macedo Costa foi nomeado primaz do Brasil, indo para a Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Ainda no século XIX, Dom Jerônimo Tomé da Silva foi transferido para Salvador, onde governou por 31 anos. No século passado foi a vez de Dom Jaime que de Belém saiu Barros Câmara e no Rio virou Cardeal de Barros Câmara. O que é provável que aconteça ao nosso amado Orani João que ficará Cardeal Tempesta.

Dom Orani deixa saudades por onde passa. Em 1997, quando foi nomeado bispo de Rio Preto,  o anúncio tomou forma solene nas palavras de Dom Luigi Rottini: «O vosso e meu bom pai, por vontade de Deus, foi elevado a um ofício superior». São palavras que ecoam nos séculos do monaquismo cisterciense. São Bernardo usou estes termos em situação similar no século XII.

Saudades e alegrias em Rio Pardo, em Rio Preto, em Belém do Pará. O Rio de Janeiro alegre-se porque recebe um homem santo, inteligente e prudente – combinação rara nestes tempos de fast-food.

cordeiro

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